[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 31 de outubro de 2017

22.10.2017
COMEMORAÇÕES DO ANIVERSÁRIO
Liszt,
aniversário com Dante

Há cinco anos, neste mesmo dia do nascimento de Franz Liszt), propus a audição de uma peça raramente escutada, "Eine Faust-Symphonie in drei Charakterbildern", a Sinfonia Fausto, com um coro final, composta entre 1854 e 1857.
Hoje, sempre mantendo a lembrança (Raiding,1811) gostaria de partilhar convosco a outra sinfonia programática de Liszt, “Eine Symphonie zu Dante Divina Commedia”, escrita entre 1855 e 1856 e estreada em 1857 cuja audição, nas salas de concerto talvez ainda seja mais rara do que a anterior.
O objectivo inicial de Liszt era compor a obra em três andamentos: um 'Inferno', um 'Purgatorio' e um 'Paradiso' em que os dois primeiros seriam puramente instrumentais e o último coral. Richard Wagner, seu genro, conseguiu convencê-lo de que nenhum compositor seria capaz de exprimir fielmente as alegrias do paraíso, com tais argumentos que Lizt desistiu do terceiro andamento não sem que tivesse acrescentado um ‘Magnificat’, com base em Lucas 1:46, no fim do segundo.
Será interessante terem em consideração que esta é uma sinfonia extremamente inovadora que propõe uma série de efeitos orquestrais e harmónicos tais como harmonias progressivas, experiências de atonalidade, 'tempi' flutuantes, interlúdios de música de câmara. Trata-se de uma das primeiras obras a utilizar a designada 'tonalidade progressiva', começando e terminando em tonalidades radicalmente diferentes, respectivamente de Ré menor e Si Maior, antecipando em cerca de quarenta anos a sua prática nas sinfonias de Gustav Mahler.
A estreia da peça ocorreu no Hoftheater de Dresden em 7 de Novembro de 1857. Foi um fiasco colossal devido a deficiências de ensaio e Liszt, que dirigiu a orquestra, sofreu uma humilhação pública. Contudo, não desanimou, mantendo a obra no concerto de 11 de Março de 1858, em Praga, juntamente com os seus poema sinfónico “Die Ideale” e segundo concerto para piano, em 11 de Março de 1858. Desta vez, a Princesa Carolyne zu Sayn-Wittgenstein, preparou um programa para o concerto que ajudaria o público a entender e a seguir a forma tão pouco comum da sinfonia.
Obra dedicada a Richard Wagner, a sinfonia está orquestrada para piccolo, duas flautas, dois oboés, corne inglês, dois clarinetes em Si bemol e em Lá, um clarinete baixo em Si bemol e Lá, dois fagotes, quatro trompas, dois trompetes em Si bemol e Ré, dois trombones tenor, um trombone baixo, uma tuba, dois pares de timpani (exigindo dois músicos) timbales, tambor baixo, duas harpas, cordas, e um coro feminino de sopranos e contraltos em que um dos sopranos deverá cantar uma parte solista.
A gravação que vos proponho é estupenda, com Masurna direcção da Gewandhaus Orchester de Leipzig.
Boas Audição!
[Ilustr: Franz Liszt; Kurt Masur]
23/10/2017


23 de Outubro de 1783
Missa em Dó menor KV.427
GRANDE EFEMÉRIDE MOZARTIANA

[A gravação que este ano partilharei convosco para comemoração desta grande efeméride foi obtida no Palau de la Música Catalana, Barcelona, em Dezembro de 1991, portanto, por ocasião dos duzentos anos da morte de Mozart.
Em anos anteriores também tenho recorrido a Sir John Eliot Gardiner, Monteverdi Choir e English Baroque Soloists. Desta vez outros são os solistas e o local é, de facto muito especial.]
Procedente de Viena, a grande capital do Império onde já estava instalado havia dois anos, Wolfgang volta a Salzburg. Consigo vai Constanze, a mulher, que será apresentada à família, aos amigos, à cidade. De acordo com uma carta que remete ao pai em 4 de Janeiro daquele ano, esta Missa terá funcionado para o compositor, precisamente, como acção de graças pelo casamento.
Faz hoje 234 anos, ensaiava-se esta obra na igreja de São Pedro, em Salzburg. Igreja de São Pedro que, mais uma vez o recordo, escapava à jurisdição do Príncipe Arcebispo Conde de Coloredo, com quem se tinha incompatibilizado. Como principal destinatária e priviligiada intérprete, Constanze. Nem mais nem menos, num destaque de primeiríssima ordem.
com particular emoção, deixem que o expresse - Como, para mim, a igreja abacial de São Pedro, em Salzburg é um lugar de «grande encontro», é com particular emoção, deixem que o expresse, que penso em Amadé, nos seus vinte e sete anos, naquela quinta-feira, dirigindo os ensaios da Missa que se cantaria no domingo seguinte, dia 26.
Pequeno parêntesis para vos dar conta de que, hoje mesmo, em Salzburg, em St. Peters, há-de haver quem reze por um grupo de amigos mozartianos no qual me incluo. Para nós, é mesmo uma das maiores e mais emotivas efemérides.
«Muitas vezes», ali tenho escutado os ecos da voz de Constanze. Comecemos por ouvir o Kyrie que, na sua voz, ainda por lá ressoa. Pois, da maneira possível, convosco partilho esta obra máxima do género sacro.
Como acima já referi, Sir John Elliot Gardiner dirige os English Baroque Soloists, Monteverdi Choir, contando com as vozes solistas de Barbara Bonney, soprano, Anne Sofie von Otter, mezzo, Anthony Rolfe Johnson, tenor, Alastair Miles, baixo-barítono.
Boa audição!
[Ilustr: Missa em Dó menor, KV. 427, pág. 2, verso, autógrafo; Sir John Eliot Gardiner]

24/10 /2017
'Por aqui' também passa a «economia que mata»...

Estas imagens separam diferentes maneiras de encarar a actividade agrícola, em geral, e a olivicultura, em sentido mais restrito. Para que tenham uma noção mais concreta acerca desta realidade, tenham em consideração que, grosso modo, há três atitudes em relação à exploração da natureza quando o objectivo é o olival:
1. olival tradicional - árvores plantadas em compassos largos - geralmente mais de 7X7m - 60 a 200 árvores por hectare - podendo ser mantidas em sequeiro ou regadio. É o sistema tradicional, utilizado há vários séculos, e representa ainda a maior parte da área de Olival em Portugal. A sua entrada em produção pode demorar 15 a 20 anos, sendo que se conhecem olivais produtivos com alguns séculos;
2. olival intensivo - árvores plantadas em compassos apertados - 285 a 415 árvores por hectare - exploradas em regadio. Entra normalmente em produção 5 a 7 anos após a instalação, podendo produzir durante várias décadas;
3. olival superintensivo - árvores plantadas em sebe, normalmente numa densidade entre 900 e 1200 árvores por hectare. É explorado em regadio, e entra em produção dois a três anos após a instalação. Os olivais mais antigos que se conhecem explorados neste sistema raramente ultrapassam os vinte anos de idade.
Ora bem, no caso do meu, trata-se de um olival perfeitamente tradicional com 140 oliveiras por hectare, do qual fotografei apenas umas poucas árvores para que se apercebam do compasso espaçadíssimo. As outras duas fotos ilustram um exemplo do superintensivo, vizinho do meu monte, em que a densidade é tremenda.
Naturalmente, quanto maior é o ratio de árvores por hectare, muito maiores são os riscos que se combatem com o recurso, também intensivo, a tudo quanto é tratamento da mais diversa natureza química. Reparem que a vida do olival superintensivo não ultrapassa os 20 anos, ou seja, as mesmas duas décadas que o tradicional precisa para começar a produzir...
A propósito, já devem saber o que está a acontecer nos grandes olivais da Andaluzia, onde a presença da bactéria 'Xylella fastidiosa' lançou o pânico nos agricultores da região, com mais de 60 milhões de oliveiras em produção, podendo vir a ter um impacto semelhante ao da 'filoxera' na vinha, a grande praga que ocorreu na Europa em meados do século XIX. Naturalmente, grande é a preocupação nos seus colegas alentejanos.
Pois é, meus caros amigos. Ou muito me engano ou aquele «branquinho» das duas fotos, a salpicar hectares e hectares de terreno, é bem a imagem de uma avidez cujos custos, estou em crer, ainda acabarão por saír demasiado caros. Demasiado caros a todos os cidadãos, que não só aos olivicultores. Embora a natureza vá dando sinais de manifesto «incómodo», a ganância torna os «interessados» muito distraídos...
25/10/2017


Pablo Picasso,
25 de Outubro de 1881

(m. 1973)
Inúmeras foram as relações de Picasso com as artes performativas, testemunhos havendo não só no Teatro, no Bailado, por exemplo, mas também na Música.
No ano passado, comemorei a efeméride recorrendo, entre outros dos seus projectos, a “Parade”, bailado com música de Erik Satie e encenação de Jean Cocteau, peça composta entre 1916 e 1917, para os Ballets Russes de Sergei Diaghilev, que subiu à cena em Paris, a 18 de Maio de 1917 no Théâtre du Chatelet, com figurinos e cenário de Pablo Picasso.
Desta vez, celebrando os seus cento e trinta e seis anos,
a partilha da sua pintura numa directa referência ao universo musical, com "Les Trois Musiciens". Aqui têm as duas versões desta obra do cubismo sintético, datadas de Fontainebleau 1921, representando as três personagens da Commedia dell'arte.
Numa, Pierrot toca clarinete, à esquerda, Arlequim o violino e Colombina, à direita, parece tocar o acordeão. Na outra versão, Pierrot continua com o clarinete, Arlequim, ao centro, toca guitarra, à Colombina cabem as folhas de música e, de baixo da mesa, difícil de distinguir, um cão preto.
Não há 'luz real' nestas duas telas, tudo parecendo iluminado ao mesmo tempo. Por outro lado, a impressão patente de falta volume tanto nos objectos como nas personagens contribuindo para que se acentue o aspecto das duas dimensões.
[Ilustr: Pablo Picasso, "Les Trois Musiciens"]


25/10 /2017
25 de Outubro de 1838
Georges Bizet 

(m. 1875)
Este excerto da 'Carmen' é especialmente dedicado ao meu neto Pedro Maria, estudante de flauta transversa que hoje faz 13 anos. Certamente, concordarão que, coincidindo o seu com o aniversário do compositor, esta peça não podia ter destinatário mais adequado.
Acresce que Pahud é um paradigma. Tenho tido o privilégio de o ouvir inúmeras vezes e, naturalmente, logo que for oportuno, o Pedro acompanhar-me-á para assistirmos juntos a um seu concerto. Como calculam, já lho tinha prometido.
Boa Audição!
[Ilustr: Georges Bizet; Emmanuel Pahud]

26/10/2017

26 de Outubro de 1685
Domenico Scarlatti
(m. Madrid, 23 de julho de 1757)

Como saberão, 1685 foi o tal ano maravilha em que nasceram os três gigantes do Barroco, Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Händel e o «nosso» Domenico Scarlatti.
Estou em crer que também estarão ao corrente da razão pela qual escrevi aquele possessivo entre aspas, e, por isso, me dispensando da explicação do detalhe.
De qualquer modo, como se recordarão através da nota de divulgação neste meu mural, no passado dia 22, a Parques de Sintra e o meu amigo Massimo Mazzeo não puderam deixar de ter em consideração o tal «pormenor» ao promoverem mais um concerto do ciclo 'Tempestade e Galanterie' em Queluz, subordinado ao tema 'Domenico Scarlatti e a Roma que ele trocou por Lisboa'...
Iniciemos as «comemorações.
I.
Das mais de quinhentas e cinquenta sonatas que compôs, a maior parte destinaram-se ao cravo, muito menos ao pianoforte e muito poucas ao órgão. Mas também escreveu para outros instrumentos como, por exemplo, esta verdadeira preciosidade que venho propor-vos.
Para Cravo e viola d'Amore, em Ré menor, leva o número de catálogo, Kirkpatrick, 89. A interpretação, por Valerio Losito e Andrea Coen, é de alto nível, aliás, em instrumentos primorosos.
Boa audição!
II.
Scarlatti & Kipnis
- sucesso para recordar
Mas o cravo!... Eis as Sonatas K. 146, 204a, 204b, 205, 513, 87, 322, 323, 337, 338, 443, 444, 14, 11 e 17. Pouco mais de uma hora da melhor Música, nas mãos de Igor Kipnis, um dos grandes cravistas do século vinte. Esteve na Gulbenkian. Quem se lembra?
Boa Audição!
[Ilustr: Domenico Scarlatti]



26/10/2017
Gulbenkian,
Grande Auditório, hoje às 21.00


Em 1909, a Canção Fúnebre que Stravinsky compôs em memória de Nikolai Rimsky-Korsakov foi tocada pela primeira e última vez há mais de cem anos. Julgava-se que a partitura estivesse irremediavelmente perdida, talvez destruída durante a Revolução de 1917 ou na subsequente guerra civil. No entanto, em 2015, os manuscritos finalmente emergiram no Conservatório de São Petersburgo, quando a esperança de reaver esta peça composta antes de O Pássaro de Fogo era quase nula. A sua estreia em Portugal integra-se num programa marcado também pela primeira atuação com a Orquestra Gulbenkian do prodígio pianístico britânico Benjamin Grosvenor.

Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster Maestro
Benjamin Grosvenor Piano
Igor Stravinsky
Canção fúnebre, op. 5 (Estreia em Portugal)
Edvard Grieg
Concerto para Piano e Orquestra, em Lá menor, op. 16
Nikolai Rimsky-Korsakov
Shéhérazade, op. 35
______________________________
Grosvenor, prodígio
À informação acima partilhada, constante do 'site' da Fundação, gostaria de acrescentar uma referência ao meu amigo Luís Pereira Leal que, durante mais de trinta anos, dirigiu o Departamento de Música da Gulbenkian e, em simultâneo, exerceu as funções de Director Artístico do Festival de Sintra.
Sempre actualizadíssimo, com preciosos contactos no mundo da grande música, Luís Pereira Leal foi quem promoveu a primeira vinda de Benjamin Grosvenor a Lisboa e a Sintra (Queluz), para récitas esplendorosas que, tanto me tendo impressionado, me levariam à oportuna partilha dos mais encomiásticos comentários.
Também hoje não poderia deixar de registar e, mais uma vez, lamentar a atitude do incompreensível «despedimento» de Luís Pereira Leal, com a qual, há quatro anos, logo no início do seu primeiro mandato, o actual executivo da Câmara Municipal de Sintra dava a entender como seriam funestos para o Festival de Sintra os anos que se seguiram.
Terminemos, não com esta tristíssima e sintrense evidência mas, isso sim, com uma preciosa partilha. Trata-se da prestação de Grosvenor, precisamente na mesma obra que hoje à noite vem interpretar, o Concerto para Piano e Orquestra em Lá menor Op. 16, de Edvard Grieg. Nesta gravação, temos o maestro Kasuki Yamada dirigindo a Orquestra Filarmónica de Bergen.
Boa Audição!
[Ilustr: Benjamin Grosvenor]

segunda-feira, 30 de outubro de 2017



'Os alvores do Romantismo em Portugal'
Sala da Música
Sexta-feira, 27 de Outubro


Noites de Queluz
Ciclo Tempestade e Galanterie
sob coordenação e Direcção artística de Massimo Mazzeo

Com a pianista Laura Fernández Granero, um especial recital de pianoforte em perspectiva.
Exclusivamente obras de João Domingos Bomtempo e Muzio Clementi. Na primeira parte, duas Sonatas de JDB e uma de MC e, depois do intervalo, Danças e Variações de ambos os compositores.
Transcrevendo do programa de sala:
"João Domingos Bomtempo (1775-1842) e Muzio Clementi (1752-1832) adquiriram ambos fama fora dos seus países de origem: o português em paris e em Londres, o italiano na mesma Inglaterra onde cedo se fixou. Conheceram-se entre uma e outra dessas capitais e, quando Bomtempo se mudou para londres, uma sincera amizade nasceu entre estes dois compositores, virtuosos do piano e pedagogos. Um face-a-face musical, na estreia portuguesa da jovem pianofortista espanhola Laura Fernández Granero".
Trata-se do penúltimo serão do ciclo que, iniciado em 27 de Setembro, terminará já no próximo Domingo, dia 29 de Outubro com a estreia mundial moderna da Serenata 'Il Natal di Giove' de João Cordeiro da Silva (c.1735-1708), evento que está a suscitar a maior expectativa no meio musical nacional. Naturalmente, anunciarei com o destaque merecido.
As lotações já estarão esgotadas. De qualquer modo, como há sempre uma ou outra desistência, tentem a vossa sorte.

26/10/2017

Stravinsky,
Canção Fúnebre, Op. 5
Estreia em Portugal

Gulbenkian, 
Grande Auditório,
hoje às 21.00
Em 1909, a Canção Fúnebre que Stravinsky compôs em memória de Nikolai Rimsky-Korsakov foi tocada pela primeira e última vez há mais de cem anos.
Julgava-se que a partitura estivesse irremediavelmente perdida, talvez destruída durante a Revolução de 1917 ou na subsequente guerra civil. No entanto, em 2015, os manuscritos finalmente emergiram no Conservatório de São Petersburgo, quando a esperança de reaver esta peça composta antes de O Pássaro de Fogo era quase nula.
Eis uma abordagem, estupenda, de Valery Gergiev, dirigindo a Orquestra do Teatro Mariinsky, especialmente dedicada a todos os meus amigos que, pelas mais diferentes razões, não podem assistir hoje ao concerto no Grande Auditório da Gulbenkian.
Boa Audição!
[Ilustr: Igor Stravinsky; Valery Gergiev]


27 de Outubro de 1914
 Dylan Thomas (Swansea, País de Gales)
(m. Nova Iorque,1953)

[partilha de "Light Breaks Where No Sun Shines" numa gravação pelo próprio poeta. Também uma tradução por Joge de Sena]
Há cinquenta e dois anos, em Letras, fiquei a conhecer o portento. Estava no meu primeiro ano da Faculdade, quando se deu o evento, pela mão do poeta Tomaz Kim - pseudónimo de Joaquim Fernandes Tomás Monteiro Grilo, professor de Teoria da Literatura - a quem, na altura, fiquei a dever a descoberta de alguns dos maiores tesouros da 'nova' Poesia britânica e americana.
De tal modo desassossegou os meus dezassete anos de então que não mais deixou de jorrar a sua verve. Permanente espanto. Até hoje.
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Light Breaks Where No Sun Shines
Light breaks where no sun shines;
Where no sea runs, the waters of the heart
Push in their tides;
And, broken ghosts with glow-worms in their heads,
The things of light
File through the flesh where no flesh decks the bones.
A candle in the thighs
Warms youth and seed and burns the seeds of age;
Where no seed stirs,
The fruit of man unwrinkles in the stars,
Bright as a fig;
Where no wax is, the candle shows its hairs.
Dawn breaks behind the eyes;
From poles of skull and toe the windy blood
Slides like a sea;
Nor fenced, nor staked, the gushers of the sky
Spout to the rod
Divining in a smile the oil of tears.
Night in the sockets rounds,
Like some pitch moon, the limit of the globes;
Day lights the bone;
Where no cold is, the skinning gales unpin
The winter's robes;
The film of spring is hanging from the lids.
Light breaks on secret lots,
On tips of thought where thoughts smell in the rain;
When logics dies,
The secret of the soil grows through the eye,
And blood jumps in the sun;
Above the waste allotments the dawn halts.
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Tradução de Jorge de Sena
A luz rompe onde o sol não brilha;
Onde o mar não corre, as águas do coração
Avançam suas marés;
E, quebrados espectros com pirilampos nas cabeças.
As coisas da luz
Insinuam-se na carne onde carne não cobre os ossos.
Um círio entre as pernas
Aquece a juventude e o sémen e queima o sémen da idade;
Onde sémen se não agita,
O fruto do homem incha nas estrelas,
Brilhante como um figo;
Onde cera não há, o círio mostra os seus cabelos.
A alvorada rompe atrás dos olhos;
De mastros do crânio e dedos dos pés o soprante sangue
Desliza como um mar;
Sem muros nem estacadas, os borbotões do céu
Esguicham para a vara do vedor
Num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite nas órbitas arredondada,
Como uma luz de paz, o limite dos globos;
O dia acende o osso;
Onde frio não há, as ventanias desprendem
As vestes do Inverno;
A película da Primavera pende nas pálpebras.
A luz rompe em lotes secretos,
Em pontas do pensar onde os pensamentos cheiram mal na chuva;
Quando a lógica morre,
O segredo do solo cresce pelos olhos dentro,
E o sangue salta ao sol;
Por sobre os terrenos vagos a alvorada pára.
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> Dylan Thomas [by himself], no documento que convosco partilho.
Boa Audição!